No número 69 da revista GRIAL, publicado no ano 1980, aparecía un artigo onde o Profesor Rodrigues Lapa lembraba unha entrevista feita en 1929 a Fernández Flórez polo xornalista Novais Teixeira, quem publicaba os seus traballos no lisboeta “Diário de Notícias”. Nesa entrevista Fernández Flórez marcaba algunhas das pautas para unha reconsideración e recuperación da lingua galega a través dun maior achegamento ao idioma portugués.
W. FERNÁNDEZ FLÓREZ E O IDIOMA PORTUGUÉS
“Não há muito tempo, um jornalista galego, Ánxel Padín, publicou um artigo muito interessante na “Hoja del Lunes”, no qual citava o exemplo de um prosador galego, Torrente Ballester, que foi publicamente censurado por não escrever em galego. Tal reprovação, injustíssima, abrangue figuras de alto nível literário que têm honrado a Galiza e as letras peninsulares: Emilia Pardo Bazán, Julio Camba, Valle-Inclán, Camilo José Cela. Para esconjurar este detestável terrorismo verbal, nada há como opor-lhe as armas da razão, explicando aos menos cultos o motivo fundamental por que a Galiza não tem, nem poderá ter grandes prosadores no galego actual. O caso é muito simples. O dialecto vai servindo para a poesía; mas a prosa literária exige uma língua de civilização. Isto porque prosa e poesia são géneros distintos, servidos por formas distintas de expressão. O discurso prosaico está sujeito a normas de precisão lógica, inteligibilidade, visão objectiva e prática, que a poesia generalmente põe de lado, para ser realmente poesia.
Se tivermos em conta esta definição geral, e a continuar tudo como de antes, a Galiza ver-se-á condenada a produzir poetas só para consumo interno, e a não ter ficcionistas em prosa que valha a pena ler, a menos que escrevam em castelhano, que é precisamente o que têm feito até agora. Mas isso envolve um problema de muita importância, que este nosso artigo pretende esclarecer através do testemunho de W. Fernández Flórez. Entrevistado em abril de 1929 pelo jornalista Novais Teixeira para o “Diário de Notícias” (Lisboa), o autor de Minha mulher teceu considerações surpreendentes sobre o humorismo galego e a dificuldade de o exprimir em castelhano:
“A composição específica do humor galego, matizes de “socarroneria” preventiva e certos esbatimentos suaves a realçar a intenção, não se harmoniza bem com o violento poder gráfico do castelhano, todo ele aberto, cortante, dominador. Requere um idioma mais doce, mais flexível, mais de meias tintas, cujas íntimas virtudes levem num simples traço à compreensão do leitor toda a trajectória da parábola. E como o humor se infiltra mais pelo que sugere do que pelo que diz, quanto menor for o traço de partida maior será a trajectória a percorrer. Ora o português é, quanto a mim, o idioma ideal para sugerir a máxima intenção dentro da mínima dicção. Com três reticências depois de um suspiro, coloca três balas no coração alvo. Negando, afirma, se preciso for; afirmando, nega, se mister se torna. Para implorar, não precisa de humilhação: ordena. E, se de ordenar se trata, não acode à voz de comando: roga. Tudo brando, convincente, sem grito nem imprecação, permitindo à intenção mais recta sinuosas elegantes e ao objectivo mais intencionado suspensões de impulso forte. Assim, quando me leio em português, a minha prosa e com ela o meu estilo -calor anímico- ganha em realce, em flexibilidade, em periferia, e eu tenho a impressão de que estou lendo o meu amigo mais íntimo. E quem me pode censurar a graça que o meu inseparável me produz?… As franquezas da amizade são sempre desculpáveis. O certo é que, se me fosse possível escrever em português, respiraria melhor…”
Ao lermos este passo do grande humorista galego, tão penetrante e rico de informação estilística, acode-nos logo à memória o nome de Eça de Queiroz. Em quem estaría ele a pensar a não ser no maior humorista português de todos os tempos? Diz-nos o nosso bom e querido Prof. Guerra da Cal que Fernández Flórez, de quem foi amigo, “conhecia de cor” Eça de Queiroz. Efectivamente, da obra monumental que é Lengua y Estilo de Eça de Queiroz,constam traduções de Eça feitas por Flórez: Uma Campanha Alegre, A Capital, O Conde de Abranhos e Alves & Cª. Sería deveras estimulante indagar como e até que ponto o tradutor galego respira pior no texto castelhano. E ninguém melhor do que Guerra da Cal poderia levar a cabo essa investigação estilística, tendente a esclarecer e justificar o pensamento do humorista galego.
Sobre o idioma galego e suas notórias e inevitáveis carências, também Fernández Flórez se pronuncia de forma acertada e actualíssima, como vamos ver: “É em Portugal que a nossa língua galaico-portuguesa tem hoje um sentido oficial e de difusão. Na Galiza está estacionada, em estado de cristalização, chamemos-lhe assim, desde o século XV, entre a gente do campo. Apesar disso, ainda hoje é rica em expressões populares, faltando-lhe porém termos científicos ou cultos, que adota do castelhano, enchendo-se assim de barbarismos inúteis. Se o portugês tem uma terminologia sua, perfeitamente em dia e a par das necessidades actuais, para que vamos ceifar en seara alheia?… Já que difícil se torna adotar o português de um dia para o outro, é preciso ir depurando o galego a pouco e pouco pela acção do seu idioma culto… Já se vai notando grande variedade de termos portugueses em substituição de barbarismos castelhanos, e eu confio que a minha língua, alentada agora pela acção evolutiva, há-de mais cedo ou mais tarde ceder a este inevitável fenómeno de incorporação natural”.
Julio Camba, em 1926, exaltava o poder mágico de uma língual (o galego), lírica por excelência, apta para falar com os passarinhos mas não com os ministros. Pensava que, para falar com estes últimos se usasse o português. Flórez, três anos depois, atacou o problema pela raiz e, consciente dos defeitos e pobreza da fala popular, sustentou a necessidade de recorrer ao português, mais apto do que o castelhano para exprimir a complexidade dos jogos da ironia. Viu enfim no português a verdadeira expressão literária do galego. Sendo porém difícil adotá-lo imediatamente, achava ser preciso depurá-lo progressivamente pela acção da sua lingua culta, o português. Era, no fundo, a tese de Castelao, proposta mais tarde, em 1944, na carta a Sánchez-Albornoz; mas note-se que os termos de Flórez não excluem a possibilidade da adoção pura e simples do português como língua de civilização. Hoje, com a Autonomia à porta, essa dificuldade já não tem razão de ser.
Pertencendo à generação das Irmandades da Fala, cujo labor enaltecia, conhecendo sem dúvida os escritos de Viqueira sobre o idioma, Fernández Flórez equacionou o problema da língua em termos de futuro, colocando-se por isso mesmo acima das divagações poéticas de Camba. De qualquer maneira, esses dois pioneiros, relegados a injusto olvido, serão tidos de ora em diante como precursores de todos os que se batem pela reintegração das duas culturas e dos dois idiomas. Mais uma vez cumpre afirmar esta verdade indesmentível: nós não inventámos coisa nenhuma; tudo quanto dizemos já o tinham proclamado os devanceiros. Honra lhes seja por isso!”
MANUEL RODRIGUES LAPA (Amadís)
GRIAL, 1980